Mãe de Isabella Nardoni está grávida


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Ana Carolina Oliveira aguarda o nascimento de Miguel, primeiro filho com o marido, com quem se casou há dois anos

Por: João Batista Jr.21/04/2016 às 23:00

O país inteiro se solidarizou com as lágrimas de Ana Carolina Oliveira. Em março de 2008, sua filha, Isabella Nardoni, então com 5 anos, foi assassinada pelo pai, Alexandre Nardoni, e pela madrasta, Anna Carolina Jatobá. No dia da tragédia, antes de ser arremessada pela janela do 6º andar do Edifício London, na Vila Guilherme, na Zona Norte, a menina sofreu muito nas mãos dos adultos que deveriam estar cuidando dela. Apanhou com uma chave tetra, foi asfixiada e, quando estava inconsciente, atirada com vida de uma altura de 20 metros.

Em busca de alívio, recorreu às sessões de terapia, três vezes por semana. Sua mãe, Rosa Oliveira, esteve ao seu lado o tempo todo e foi fundamental na superação do drama. Até hoje tem sido assim. “Com o tempo, aprendemos a nos acostumar com a dor. Alguns dias, no entanto, são mais difíceis que outros”, afirma a avó de Isabella. Na última segunda (18), a criança teria completado 14 anos. Nessa data, Rosa pegou a filha e dirigiu até o Litoral Norte, onde tem uma casa de praia, para que as duas pudessem descansar admirando o mar. “Não comparo dores, por isso não me fiz de coitada achando que os meus problemas eram maiores do que os dos outros”, diz Ana Carolina. “Lutei para voltar a ser feliz, pois essa é a imagem que a minha filha tinha de mim.” O marco da reconstrução de sua vida veio na forma de uma explosão de alegria dentro de um lugar inusitado: um banheiro público.

Na época do assassinato, Ana Carolina estava namorando, mas o relacionamento acabou meses depois. Ficou solteira por quase dois anos, até encontrar o futuro marido, em um bar no bairro de Santana. “Ficamos conversando e rolou um magnetismo”, lembra ela. Assunto não faltava. Os pais dela são donos de uma loja de roupas onde a mãe de Vinicius abastecia o guarda-roupa do filho. Os dois eram vizinhos de bairro, tinham amigos em comum e frequentaram os mesmos lugares na infância — mas até então os destinos não haviam se cruzado. Nos primeiros instantes do encontro no boteco na Zona Norte, Vinicius não ligou Ana Carolina ao caso Isabella. Como todo o Brasil, ele acompanhou tudo pelo noticiário, mas demorou algum tempo naquela noite para perceber que estava diante de uma das personagens principais da história. 

Certa vez, em 2008, ele precisou refazer o caminho na volta para casa porque a Rua Santa Leocádia, onde fica o Edifício London, estava interditada devido a um trabalho de perícia ligado à investigação do crime. Como naqueles filmes de comédia romântica, o primeiro beijo aconteceu onde menos se esperava. Na semana seguinte ao primeiro encontro, Ana Carolina foi para uma balada com amigas no interior — mas foi barrada na portaria por estar com uma máquina fotográfica na bolsa.

Na hora em que foi guardar o pertence no carro, encontrou Vinicius no estacionamento. A paixão nasceu naquela noite, mas eles tiveram de enfrentar uma fase de namoro a distância, no caso, de 10 000 quilômetros. Por incentivo de seu psicólogo, que achava importante a paciente respirar ares diferentes e ter uma nova rotina, ela havia comprado um pacote de seis meses de intercâmbio na Califórnia e estava prestes a embarcar para os Estados Unidos. “Carol manteve o plano, mas nós nos falávamos todos os dias em que ela esteve por lá”, diz Vinicius. O que seriam seis meses de ausência viraram cinco. No último mês, ele foi encontrá-la no exterior.Eles aproveitaram para viajar para San Diego, Miami e Nova York. No começo do relacionamento, ele ficou assustado com o tipo de reação que sua companheira despertava. Devido à exposição durante as investigações e o julgamento da morte de Isabella, as pessoas a reconheciam nas ruas. Algumas chegavam a pedir autógrafo. Um jantar do casal foi interrompido em um restaurante porque alguém quis fazer uma foto. “Ela não é celebridade nem atriz de novela”, diz o marido. “Entendo terem carinho, mas, na minha cabeça, não faz sentido tirar um retrato com alguém que ficou conhecido naquela situação.” Apesar do desconforto, o relacionamento prosperou. “Tem gente que fala que fui corajoso”, conta Vinicius. “Não penso assim. Amo a Carol, então foi natural seguir com a nossa história.” Ana Carolina levou um tempo para se acostumar com esse tipo de assédio.

Com sandálias e vestido de malha, Ana Carolina Oliveira, de 32 anos, abre a porta de seu apartamento na Zona Norte contando ter engordado 10,5 quilos nos oito meses de gestação. Miguel será seu primeiro filho com o marido, o administrador Vinícius Francomano, 29 anos. Com a sala decorada com porta-retratos de Isabella e um ultrassom do filho que está a caminho, ela falou sobre este novo capítulo de sua vida: 

Como enfrentou uma perda traumática? Com apoio de família, religião e terapia. Até certo ponto, você aguenta sozinha. Mas tem uma hora em que a dor sufoca. Eu demorei dois meses para procurar terapia e cheguei a fazer três sessões por semana. Nos primeiros meses, o caso da minha filha aparecia todos os dias na TV. De certa forma, a comoção das pessoas me ajudou. Havia quem chorasse como se tivesse perdido o próprio filho. Recebi muitas cartas, muitos abraços. As pessoas torceram e sofreram por mim. Não comparo problemas e dores, mas não me permitia ter um papel de coitada e ir para o buraco.


Como vai contar para o seu filho o que aconteceu com a irmã dele? Vai ser de forma tranquila e em etapas. No começo, penso em falar que ele tinha uma irmã que não está mais entre nós. Depois, quando for mais velho, explicar como foi. Não tem como omitir nada, pois o caso está na internet para quem quiser ver.

O que passou pela sua cabeça quando soube da gravidez? Quem sofre problemas trágicos pode encarar uma segunda gravidez como uma substituição. Não será o meu caso. Cada filho tem uma história.

Qual é a sua religião? Sou católica de formação, mas frequento o espiritismo. Essa prática aliviou o meu coração, dando algumas explicações. Aqui era apenas um plano para a minha filha, a história dela não acabou. Ter partido tão cedo e daquela forma deve ter uma explicação.

No auge da sua dor, pensou que um dia pudesse se casar e ter filhos? Não tinha esperança em relação a isso. Mas tudo mudou. Estou vivendo o meu primeiro casamento. Com o outro (Alexandre Nardoni), eu nem sequer morei junto. Fiquei grávida de Isabella aos 17 anos, hoje tenho 32.

Onde conheceu o seu marido? No Bar do Luiz, aqui na Zona Norte, em 2010. Eu fui com o meu irmão e o Vinicius estava com uma amiga em comum. Conversamos muito, mas não passou disso. Uma semana depois, nós nos encontramos sem querer em uma balada. Ficamos e, desde então, estamos juntos.  

Você morou fora do Brasil?  Eu o conheci um mês antes de viajar para fazer seis meses de intercâmbio nos Estados Unidos. Segui meus planos, mas levei para lá um telefone a rádio e nós nos falamos todos os dias.

Quando se casaram? Em abril de 2014, na Catedral Anglicana. Era um sábado e chovia muito. Minha mãe, minha sogra e minhas duas cunhadas estavam no mesmo salão e se atrasaram para chegar. Imagina a cena: a noiva dentro de um carro na porta da igreja esperando os familiares para poder se casar. O reverendo chegou a deixar o lugar dizendo que tinha outro casamento para fazer e não poderia mais ficar ali. Meu pai foi buscá-lo no meio da rua. No fim da cerimônia, ele cantou Faz um Milagre em Mim (Como Zaqueu / Eu quero subir / O mais alto que eu puder / Só para te ver). Todos choramos pensando em Isabella.

A sua gravidez foi planejada? Sim, engravidei dois meses após deixar de usar o anticoncepcional. Durante o almoço, em um dia de trabalho, fiz o teste sozinha no banheiro de um shopping. Liguei para o meu marido dizendo que tinha um assunto sério para falar. O Vinicius achou que era uma DR (discussão de relação) e estava bravo em casa, pois era dia de jogar futebol com os amigos. Quando mostrei uma caixa com uma carta minha e o teste de gravidez, caímos juntos no choro.

Uma peça chamada Edifício London, do grupo Os Satyros, encenaria a história da Isabella... Isso foi há três anos, mas não chegou a existir a peça. Entrei com uma ação por danos morais contra o grupo (no roteiro, uma boneca era decapitada).

Você perdoaria o casal Nardoni? Isso não é comigo, é com Deus.  

A Isabella diria o que de sua gravidez?  Ela completaria 14 anos na semana passada. A Isa sempre me viu feliz — e é assim que estou hoje. Tenho certeza: Isabella estaria feliz.


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